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Cabeçadas no futebol podem aumentar chances de doenças neurodegenerativas







No estudo, foi avaliado a média de cabeceada na bola pelos jogadores: de seis a 12 vezes por partida. Em treinos específicos da jogada, o número sobe para 30 vezes ou mais (Banco de Imagens / sxc.hu)

A partida de futebol pode esconder riscos pouco considerados aos times em campo. Trata-se dos problemas de cognição e memória. De acordo com estudo publicado esta semana na revista Radiology, jogadores de futebol que cabeceiam a bola com frequência têm pior desempenho em testes de memória e anormalidades cerebrais semelhantes às encontradas em pacientes com traumatismo crânio-encefálico.

O estudo, capitaneado por Michael Lipton, diretor do Centro de Pesquisa de Ressonância Magnética Albert Einstein, em Nova York, nos Estados Unidos, contou com a avaliação de 37 jogadores amadores para saber como o cérebro seria comprometido em razão de muitas cabeceadas na bola. "Optamos por estudar os jogadores porque o futebol é o esporte mais popular do mundo. É amplamente jogado por pessoas de todas as idades e não há a preocupação de que a bola seja um componente que pode danificar o cérebro", enfatiza Lipton.

Segundo o pesquisador, no estudo, foi avaliado a média de cabeceada na bola pelos jogadores: de seis a 12 vezes por partida. Em treinos específicos da jogada, o número sobe para 30 vezes ou mais. "Os dados compilados em um ano mostram que a cabeça é usada no jogo de futebol cerca de 1.800 vezes, o que é um número bastante expressivo do contato da bola no crânio", destaca Lipton.

Os cientistas ressaltam que as partidas de futebol não devem ser evitadas. Até porque o impacto não regular em uma única posição — quando a bola bate em apenas uma parte da cabeça — provavelmente não cause danos cerebrais traumáticos, como a dilaceração das fibras nervosas. Mas os danos cumulativos podem desencadear uma cascata de reações que pode levar à degeneração das células cerebrais ao longo do tempo.

Cautela deve existir mesmo para quem não é profissional (Banco de Imagens / sxc.hu)

O neurologista Ronaldo Maciel, do Hospital Santa Luzia, explica que há anos são estudados os efeitos das cabeceadas frequentes em bolas e o vínculo com o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas. "Ainda não se conseguiram estabelecer dados significativos, o que vimos é uma maior incidência com doenças como Parkinson, Alzheimer e depressão, que podem afetar a saúde do atleta", considera.

De acordo com o fisiatra e médico esportivo Moacir Silva Neto, a preocupação em campo não deve ser descartada. Há testes neurocognitivos computadorizados que são muito sensíveis para detectar alterações mínimas na função cerebral e devem ser usados para saber se o jogador tem alguma complicação na saúde em decorrência das cabeceadas.

O médico explica que várias instituições esportivas no mundo utilizam esses testes para acompanhar traumas de cabeça em atletas e ter a certeza do momento em que eles podem retornar ao campo. "No Brasil, ainda não existem programas esportivos que utilizem esses métodos. Apesar de a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional já terem recomendado tais ações, de forma até mais enfática na última Conferência Internacional de Concussão Cerebral no Esporte, em novembro do ano passado, ainda falta conscientização da importância de exames específicos no cérebro do atleta."

Crianças

No caso de quem não é atleta profissional, Moacir Silva Neto também recomenda cautela com relação aos efeitos cognitivos da diversão em campo. Para ele, são necessários estudos prospectivos sobre o assunto a fim de melhor explicar aos pais os cuidados que os filhos devem ter ao cabecear repetitivamente a bola. "A recomendação é de que crianças mais novas não se envolvam em treinos direcionados a cabecear a bola. Por não terem uma musculatura cervical apropriada, elas podem não conseguir absorver o impacto na cabeça de forma adequada e, assim, desenvolver complicações sérias à saúde."

A recomendação é de que crianças mais novas não se envolvam em treinos direcionados a cabecear a bola, mas os pequenos não devem ser privados da atividade (Banco de Imagens / sxc.hu)

A recomendação é de que crianças mais novas não se envolvam em treinos direcionados a cabecear a bola, mas os pequenos não devem ser privados da atividade
Para evitar alarde dos pais, o médico Ronaldo Maciel explica que não é necessário privar os pequenos dos jogos. "O futebol é um esporte que faz parte da cultura brasileira. Mas é bom ficar atento ao esforço repetitivo de cabeçadas na bola. " Lipton, líder da pesquisa, também prega a moderação. "As evidências preliminares são convincentes de que as mudanças no cérebro estão associadas a cabeceadas ao longo de muitos anos. Os nossos resultados sugerem que deve haver um controle da quantidade com que se usa a cabeça na bola para prevenir a lesão cerebral."

Outros choques
A disputa aérea pela bola também pode causar efeitos danosos ao cérebro. Os choques entre atletas durante as partidas de futebol já terminaram em crise de convulsão no meio do campo. No fim do ano passado, o zagueiro Wallace, do Santos, ficou desacordado no gramado após bater a cabeça na do atacante Rafael, do Bahia. Em fevereiro deste ano, foi a vez do volante Rithely, do Sport. Por conta do choque, o atleta sofreu convulsões em campo durante uma partida contra o Campinense.

Nos casos de choques de cabeças, se o indivíduo ficar desorientado e incapaz de prestar atenção, deve-se procurar um especialista emergencialmente. "Muitas vezes, são negligenciadas as questões neurológicas. Independentemente do tamanho do impacto, é necessário submeter a pessoa a exames médicos. Os efeitos maléficos podem aparecer instantaneamente mas, também, depois de alguns dias", alerta o neurologista Ronaldo Maciel.

Também traumáticos
Esportes de alto impacto, como o boxe, as artes marciais e o rugby, também podem lesionar o cérebro. Após o golpe na cabeça, podem ser afetadas a visão, a compreensão, a audição, a coordenação e a memória. A lista de cuidados em decorrência da lesão é a mesma: ida emergencial ao especialista e visita regular ao médico para detectar possíveis alterações cognitivas. "Quando as fraturas são traumáticas, devem ser feitos exames minuciosos para detectar as possíveis alterações e preservar a saúde", diz o neurologista Ronaldo Maciel.

Clique na imagem para ampliá-la e entenda como foi feita a pesquisa. (ANDERSON ARAÚJO/CB/D.A PRESS)


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